terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Barack Obama

Hoje, 20 de janeiro de 2009, Barack Obama vai tomar posse da presidência dos Estados Unidos da América.
É impressionante e comovente como quase todo o mundo se uniu de forma espontânea e passou a depositar neste homem desconhecido expectativas pouco menos que messiânicas, senão mesmo messiânicas.
Depois de uma apreensiva entrada no novo século XXI, em que a ânsia do futuro nos levou a projetar psiquicamente que nos estaríamos a distanciar uns bons mil anos do século XX, para tentarmos de alguma forma demarcar-nos das loucuras sanguinárias que este último produziu, vimos o que parecia, afinal, trazer-nos para a realidade objetiva de que apenas houve a passagem de um ano entre 2000 e 2001 (e não mais que uma fração de segundo nesse mais esperado dos réveillons por parte das atuais gerações): mais sangue vertido, a continuidade do abuso do homem pelo seu irmão, mais descaso pela nossa própria identidade sagrada, a identidade daquela criatura a quem foi revelado que tinha o céu dentro de si e que era irmão de todos os filhos de um Pai comum.
Não posso dizer que eu seja um dos homens da geração de Kennedy. JFK morreu em 22 de novembro de 1963. Eu tinha quase dois anos, então. Tenho uma vaga ideia do sentimento de desalento que se abateu sobre toda uma geração de norte-americanos (e não só eles, embora o mundo estivesse bem longe de ser tão “global” e interativo como é agora). No entanto (e os mais velhos que me digam se isto é real), pressinto que a expectativa no messianismo de Kennedy não foi tão profunda como é esta do fenômeno Obama.
Por exemplo, o nome Kennedy era “realeza” à moda norte-americana, estava carregado de tradição, e, embora amado pelo povo, não deixava de ser um “fidalgo” em quem o homem comum se espelhou e esperou ver nele a manifestação de um poder que lhe era inerente do berço. As origens de Obama, ao invés, são claramente povo.
Salvas as longuíssimas distâncias, e a total ausência de espelhamento messiânico, George Bush também foi um “fidalgo” que avançou para o trono, ainda por cima um trono que quase herdou por legado familiar: seu pai já tinha sido “rei”, antes de Clinton.
Então que fenômeno estranho aconteceu aqui, com Obama? Será que afinal isto é mesmo já uma das primeiras manifestações de um corte radical com os paradigmas de um velho mundo? Bush levou às máximas instâncias uma forma de vida em que muitos dos homens comuns já deixaram de acreditar: apenas grande parte dos políticos, muitas corporações e um bom número de gente sem caráter nem princípios humanitários, em seus moldes mentais viciados pelas regras padronizadas de determinadas teorias econômicas e opções existenciais, ainda continuam acreditando que a velhacaria funcionou, funciona e sempre funcionará... um seguro e estável veni, vidi, vinci, quando ainda não escutávamos sobre educativas teorias da conspiração, que, por muito loucas que pareçam e sejam, nos trazem o hábito saudável de rapidamente percebermos quando estão nos mentindo. Assim, soubemos rapidamente que Bush nos mentia para poder invadir o Iraque. Se não desse para faturar com o petróleo (mas com certeza que daria, os “bons” homens de negócios sabem espremer as tetas da mãe-terra), então, no processo, daria para vender muitas armas e munições (um dos melhores negócios à face da terra, junto com as drogas).
Posso estar sendo muito injusto, e os meus olhos terem querido ver a ignomínia se manifestando naquela hora e o lado negro da minha fantasia cumprir um obscuro anseio, mas quando Bush veio à tevê pela primeira vez depois do atentado às torres gêmeas, a sensação que tive, ao vê-lo, foi que o homem mal continha um sorriso. Era como se, por trás das palavras que o teleponto ia emitindo para Bush ler, houvesse todo um desígnio inconfessável que lhe preenchia a mente e lhe trazia horizontes inconcebíveis de realizações “maravilhosas” para um homem que não tem pejo em mandar matar. Este homem mata e dorme. Este homem levou um planeta inteiro ao paroxismo do medo. Primeiro, o medo do que os terroristas poderiam nos fazer; depois, o medo do que ele poderia nos fazer.
Este “burning bush”, não é a sarça ardente das estranhezas bíblicas, mas é o estranho paradigma do homem antigo que incendeia seu próprio lar e, no processo, aniquila seus próprios irmãos.

Enquanto escrevo isto, comecei a ver a transmissão no canal Globo News da tomada de posse de Barack Obama. Há detalhes muito estranhos na forma como a mídia vai descrevendo a situação. O título da notícia (repetido constantemente pelos locutores do noticiário) foi: “o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos”. Insistiram, repetiram e até escreveram na tela da tevê. Que coisa estranha! Obama é mulato, não é negro. Será que também isto é um afobamento inconsciente na necessidade da quebra radical com o milênio passado? Tanto se quer transformar o mundo que até se perde a realidade do sangue branco de Barack Obama ser tão concreto e (esquecidamente) assumido unido ao seu sangue negro. Perde-se de vista a beleza e o maravilhamento de esta união de sangues num presidente de uma sociedade racista estar apontando uma nova realidade, concreta e definida, e, por tanto se querer fugir da realidade passada, cai-se em uma nova irrealidade: vai-se do branco absoluto para o negro absoluto, em uma inconsciente perpetuação do racismo. Este fenômeno revela a imaturidade que o ser humano já revelara quando por vingança para com os abusos de mil e oitocentos anos da Igreja, a partir do século XVIII, se decidiu tornar materialista e, às vezes, ateu. Foi um movimento de compensação, em que se saiu de um reino da estupidez para o outro, em movimento de contraponto, balanço e compensação. Não foi um processo completamente positivo, mas foi uma dialética necessária. Graças a esse erro, fruto de imaturidade, vivemos um amadurecimento que nos trouxe a percepção de que a realidade é outra que não a que nos era imposta pela Igreja e que não aquela em que o cientificismo materialista nos tentou fazer acreditar. Também nisso o novo milênio vai viver um novo paradigma.

Então, será que este fenômeno da vitória de Barack Obama é sinal da tão ansiada viragem de paradigma?
Praticamente em um único século, o vigésimo, os 100 anos mais acelerados de nossa história conhecida foram engendrando (na civilização ocidental e algumas partes da oriental) a queda do crédito às religiões institucionais, a queda dos nacionalismos, a queda dos sistemas políticos, a queda do materialismo, a queda do racismo (principalmente na sociedade mais avançada, aquela que está na vanguarda da diluição racial, a sociedade brasileira)... Parece-me que estamos agora em pleno processo de limpar o terreno dos escombros de toda essa sujeira acumulada, está na hora de revolver a terra, deixar a atmosfera dos mais utópicos ideais penetrar os ambientes telúricos dos nossos ainda mal resolvidos fantasmas e, finalmente, termos condições básicas para um novo começo, para encarar a próxima grande transformação... uma transformação que comporta amplitudes existenciais nunca antes vistas... depois de todas aquelas quedas, faz-se premente a próxima, a grande chave para a criação de um mundo aperfeiçoado, para a glória da vida e luz do nosso mais positivo destino: a queda do ego.

Quero acreditar que sim, que Barack Obama poderá ser sinal da mudança em profundidade de paradigmas.
Na festa que lhe foi dedicada no domingo passado, vi um homem com uma atitude pessoal de uma segurança espantosa, ouvi um discurso poderoso, palavras simples e de inspiração tocante, ressoando e reverberando a mística de um glorioso destino para a humanidade... Deus queira que essas palavras contenham muito mais do que o pobre “God bless the United States of America”, e que sejam palavras de um movimento de salvação para a humanidade única. Que venha, então, daquela que nesta hora é a nação mais odiada do planeta, uma luz.
Mas, por estas e outras razões, meus caros, não vou entregar já os pontos. Quero primeiro ver quem é Barack Obama. Tal como 90% da humanidade, estou rendido à impressão auspiciosa deste homem brilhante... mas não sei quem ele é.
A experiência me dirá. Deus queira que ele seja quem desejamos ser.

Um comentário:

Anônimo disse...

Olá, Carlux

Acho que posso subscrever muito daquilo que você escreveu. Mas quero destacar seu comentário acerca do fato de que Obama vem sendo chamado de “primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos”, quando você diz: “Que coisa estranha! Obama é mulato, não é negro!”

Isto pode ser uma realidade para você e para muitas pessoas entre nós. Para a grande maioria dos americanos do norte não existe uma qualificação intermediária entre o branco e o negro. Se uma pessoa tem qualquer característica – cabelo, nariz, cor da pele – que revele sua vinculação sanguínea com os descendentes dos escravos levados para o seu território no passado, isto basta. Ela é negra. Lá se usava até certo tempo atrás a expressão “colored people”, mas ela era todo abrangente. Incluía todas as pessoas que tivesse ancestrais negros, tivessem elas a pele dessa cor ou não. Até hoje ainda existe a National Association for the Advancement of Colored People, criada em 1909. Os próprios negros rejeitaram, no entanto a expressão “colored”, que de fato nada significa. Assim, é absolutamente correto dizer-se que, de uma perspectiva histórica Obama é negro. Melhor, no entanto, seria chama-lo como corretamente agora são cognominados ele e todos os que partilham de sua herança genética: afro-americanos.